90% das empresas estão usando IA do jeito errado — e criando o próprio caminho para a irrelevância

Enquanto o discurso sobre Inteligência Artificial se acelera, a prática nas empresas — especialmente nas PMEs — ainda está presa ao modo mais básico. O resultado? Investimento desperdiçado, frustração interna e um novo abismo competitivo no mercado.

Ferramentas como ChatGPT, Copilot e outras soluções corporativas de IA já fazem parte do cotidiano de milhares de empresas. O problema não é o acesso. O problema é como elas estão sendo usadas.

Na prática, a maioria das organizações está tratando a IA como um “Google melhorado”: útil para escrever e-mails, resumir textos ou revisar documentos. Isso até gera algum ganho de produtividade, mas está muito longe do verdadeiro potencial da tecnologia — e do que os concorrentes mais preparados já estão fazendo.

O diagnóstico que ninguém quer ouvir

Durante a conferência Brainstorm AI, organizada pela Fortune** em dezembro de 2025, em São Francisco, a executiva Allie K. Miller, CEO da Open Machine e ex-líder de IA na IBM e Amazon, apresentou um framework simples — e desconfortável.

Segundo ela, a adoção corporativa de IA pode ser dividida em quatro níveis de maturidade. E cerca de 90% das empresas estão presas no primeiro.

Os 4 modos reais de uso da IA nas empresas

Modo 1 — Microtarefeiro (≈ 90%)
Uso pontual e reativo.
“Escreva esse e-mail melhor.”
“Resuma esse relatório.”
A IA funciona como uma busca sofisticada. Ajuda, mas não transforma.

Modo 2 — Assistente (≈ 8%)
A IA começa a colaborar.
Brainstorming, análises iterativas, co-criação.
Aqui já existe raciocínio, contexto e ganho real de qualidade.

Modo 3 — Executor Autônomo (≈ 2%)
A IA executa processos completos.
Recebe objetivos, segue regras, entrega resultados prontos.
É onde surgem ganhos estruturais de eficiência.

Modo 4 — Colega de Trabalho (< 0,5%)
IA integrada ao fluxo da empresa.
Participa de reuniões, responde mensagens internas, toma decisões operacionais dentro de limites claros.
Ainda raro — mas já real em empresas de tecnologia avançada.

👉 O ponto crítico: a maioria das empresas acredita estar avançada, mas continua operando no Modo 1.

A “economia paralela” da IA dentro das empresas

Um estudo da Cornerstone OnDemand** (novembro de 2025) trouxe outro alerta importante:
os colaboradores já estão usando IA por conta própria, sem diretrizes, sem governança e sem alinhamento estratégico.

Esse fenômeno foi chamado de “economia de IA nas sombras”.

Segundo Mike Bollinger, VP da Cornerstone:

“Investir apenas em ferramentas, sem treinamento e governança, é a receita perfeita para o fracasso.”

Ou seja: a IA entra pela porta da frente (licenças e contratos), mas sai pela lateral — usada de forma improvisada, desigual e sem impacto real no negócio.

Produtividade hoje, problema amanhã?

Pesquisas da Harvard Business School** (dezembro de 2025) mostram um dado que merece atenção das lideranças:

  • Profissionais júnior tiveram ganho médio de 43% de produtividade com IA
  • Profissionais sênior, apenas 17%

No curto prazo, isso parece excelente.
No médio e longo prazo, levanta uma questão séria:
como formar talentos e lideranças se a base aprende menos o “porquê” e apenas executa o “como”?

Para PMEs, esse ponto é crítico: usar IA sem estratégia pode acelerar resultados hoje, mas fragilizar o capital humano amanhã.

O abismo entre gestores e equipes

O Edelman Trust Barometer** (novembro de 2025) trouxe outro dado revelador:

  • 2 em cada 3 gestores dizem usar IA regularmente
  • Apenas 1 em cada 4 não-gestores afirma o mesmo

Mas há um detalhe importante:
uso frequente não significa uso estratégico.

Grande parte dos gestores também está presa ao Modo 1 — apenas com mais confiança do que competência real. Isso cria uma falsa sensação de maturidade digital dentro das organizações.

Como sair do Modo 1: autonomia mínima viável

A provocação de Allie Miller é clara:

o problema não são os prompts — é a falta de objetivos claros e limites bem definidos.

Em vez de pedir tarefas soltas, as empresas precisam começar a delegar objetivos à IA.

Exemplo prático:

  • Objetivo: gerar relatório semanal de vendas
  • Limites: usar apenas dados da pasta X | formato PPT | máximo 10 slides
  • Resultado: relatório pronto, sem microgestão humana

Ela propõe um portfólio de uso de IA mais equilibrado:

  • 20% tarefas simples (Modo 1)
  • 50% colaboração e análise (Modo 2)
  • 25% automação de processos (Modo 3)
  • 5% experimentação avançada (Modo 4)
O alerta que as PMEs não podem ignorar

“IA não é uma ferramenta.
Organizações que a tratam assim vão passar a próxima década tentando entender o que aconteceu.”
Allie K. Miller

Para as PMEs, a pergunta central não é tecnológica. É estratégica:

👉 Você está apenas otimizando e-mails ou está redesenhando a forma como seu negócio opera?

Na Nexo, acreditamos que a IA não deve afastar o empreendedor da essência do negócio — pelo contrário. Ela precisa liberar tempo, ampliar visão e apoiar decisões melhores, de forma prática e aplicável à realidade local.

O futuro não será dividido entre quem “tem” ou “não tem” IA.
Será dividido entre quem aprendeu a trabalhar com ela — e quem ficou para trás.


Fontes e referências
  • Conferência Brainstorm AI da Fortune (dezembro 2025, São Francisco) – base do framework dos “4 modos de IA” e dados de 90% no Modo 1.​
  • Allie K. Miller (CEO Open Machine, ex-IBM/Amazon) – criadora do framework e autora de frases-chave como a do “email grosseiro mais educado”.​
  • Estudo Cornerstone OnDemand (novembro 2025) – confirma diagnóstico de Miller e define “economia de IA nas sombras”; Mike Bollinger (VP) citado.​
  • Pesquisa Digital Data Design Institute (Harvard Business School) (dezembro 2025) – ganhos de produtividade 43% (júnior) vs 17% (sênior); alerta sobre pipeline de talentos.​
  • Edelman Trust Barometer (novembro 2025) – 1 em 4 não-gestores usa IA vs 2/3 gestores; divisão “massa-classe”.​
  • Imagem fonte: Freepik IA